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Raio-X: a maioria das contabilidades brasileiras ainda não mapeou o impacto do IBS e da CBS

  • Foto do escritor: Gabriel Ricardo Garcia
    Gabriel Ricardo Garcia
  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

2026 é oficialmente o ano de testes da Reforma Tributária — mas o intervalo entre o cronograma legal e a preparação real dos escritórios de contabilidade é maior do que parece.



Desde janeiro de 2026, empresas brasileiras já são obrigadas a destacar o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) em suas notas fiscais eletrônicas, ainda que em alíquotas simbólicas de teste. O calendário técnico não parou por aí: até 10 de julho, os contribuintes precisaram observar a atualização das tabelas dos documentos fiscais eletrônicos, e em 31 de julho encerrou-se o período de tolerância para o preenchimento facultativo dos novos campos de IBS e CBS (Contábeis, 2026).

Na prática, isso significa que a fase "educativa" da reforma já está no fim. E o que vem a seguir tende a pesar mais sobre a rotina contábil do que sobre a jurídica.


O tamanho real do problema


Uma pesquisa recente — a Pesquisa de Mercado Contábil 2026, conduzida pela Connectabil em parceria com Roberto Dias Duarte, com 644 escritórios respondentes e 70 indicadores por empresa — chegou a uma conclusão desconfortável: o mercado contábil brasileiro segue, em sua maioria, num ambiente que nem mede nem domina a tecnologia que já usa. O estudo identificou um perfil chamado de "Artesão": escritórios que adotam ferramentas (incluindo IA) sem base de gestão para sustentar o ganho. Nesse grupo, a chance de reportar aumento de produtividade cai para apenas 19% (RDD, 2026).

O problema não é exclusivo da contabilidade. Estudos da FGV e da ABDI apontam que 66% das micro e pequenas empresas brasileiras ainda estão nos estágios iniciais de digitalização — "analógico" ou "emergente" — o que inclui boa parte da carteira de clientes que essas contabilidades atendem (Ottimizza, 2026).


Onde a Reforma amplifica o problema


A Lei Complementar 214/2025 prevê, entre outras mudanças estruturais, o chamado split payment — mecanismo pelo qual o IBS e a CBS passam a ser retidos automaticamente no momento da liquidação financeira da transação, não mais apurados posteriormente pela empresa (Andere Advogados, 2026). Isso muda o momento em que o risco fiscal se materializa: historicamente, parte dele aparecia "depois" — na declaração, na apuração, na fiscalização. Com o split payment, o erro operacional se torna visível em tempo real.

Advogados tributaristas já apontam três riscos concretos para empresas despreparadas: risco operacional (impossibilidade de emitir notas no novo padrão), risco fiscal (cobrança efetiva mesmo durante a fase de testes, em caso de descumprimento de obrigações acessórias) e risco de caixa (alteração no fluxo por conta da retenção automática) (Mozer Advogados, 2026). Para o escritório de contabilidade, cada um desses riscos vira, na prática, mais uma camada de apuração, conferência e controle manual — justamente o tipo de trabalho que consome tempo de equipe sem gerar valor perceptível para o cliente final.


O gap entre intenção e execução em IA


Se por um lado a demanda por eficiência aumenta, por outro a adoção de IA no ambiente corporativo brasileiro ainda caminha mais devagar do que o discurso sugere. Uma pesquisa da MIT Technology Review Brasil em parceria com a Skyone, com cerca de 265 líderes empresariais, mostrou que 99% das empresas consideram agentes de IA centrais para o negócio nos próximos três anos — mas 74% ainda estão em estágio inicial ou intermediário de adoção, e 57% não têm orçamento dedicado para iniciativas de IA (Framework Digital, 2026).

Ou seja: existe ambição, mas falta estrutura para transformar ambição em resultado. Para o setor contábil, isso se soma a um problema pré-existente de medição — como aponta a pesquisa RDD/Connectabil, quem não mede, não enxerga; e quem não enxerga, não melhora de forma deliberada.


O que isso significa na prática


O intervalo entre "sabemos que a reforma está vindo" e "já mapeamos o impacto operacional dela no escritório" é onde a maioria das contabilidades brasileiras hoje se encontra — na primeira frase, não na segunda. A fase de testes de 2026 é, ao mesmo tempo, a janela mais barata para corrigir essa distância e o prazo mais curto que o setor já teve para isso.


Este levantamento foi produzido pelo Sambaí a partir de fontes públicas e pesquisas de mercado citadas ao longo do texto.

 
 
 

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